Ao calor da fogueira

– Eu sei que o Tio Ambrósio já anda um pouco enfastiado com as nossas repetidas conversas sobre o teatro da nossa política e os seus maus actores. Mas não resisto a voltar à carga. Desculpe-me!

– Nós somos dois cidadãos livres, Carlos! E aqui, no recato da minha casa, penso que ainda gozamos de presumida liberdade de expressão.

– Nem todos se podem gabar de uma situação assim, Tio Ambrósio! Pelo menos, alguns vão dizendo à boca cheia que foram pressionados a não publicarem certas notícias. Olhe, por exemplo o director do jornal "Expresso" que declarou, de forma inequívoca, que o nosso primeiro esteve com ele mais de uma hora ao telefone para o convencer a não publicar uma notícia referente à forma como ele, o nosso primeiro, tinha obtido o seu grau académico de licenciado em engenharia numa conhecida universidade privada. E defendem eles o ensino público! Mas isso é outra conversa, que agora não é para aqui chamada.

– Não é, porque tu não queres! Ou tens medo que alguém nos escute as conversas. Penso que ali atrás da
porta, com a chuva que cai lá fora,
não deve estar ninguém!

– Não é isso, Tio Ambrósio! É que eu venho cá com uma vontade de comentar consigo uma notícia que o meu cunhado Acácio me deu, que agora não dá para pensar em qualquer outra coisa.

– Deve ser coisa de suma importância!

– Se calhar nem é, Tio Ambrósio! Mas eu achei uma certa piada ao
recorte de um jornal, com data do
passado domingo, que o Acácio me trouxe para eu ler de fio a pavio. E, como é natural, eu não quis deixar de colocar
o Tio Ambrósio ao corrente deste texto noticioso que nos chega de Moçambique, e no qual deviam botar os olhos alguns magistrados portugueses para saberem como é que se procede em casos que tais...

– Afinal do que se trata?

– Diz aqui que o Tribunal de Maputo teve a coragem de condenar um antigo ministro dos transportes e comunicações "a 20 anos de prisão por desvio de bens públicos". O tal ex-ministro tem nome. Chama-se António Munguambe. E a condenação, certamente para exemplo de todos, foi transmitida na televisão lá do sítio e também na rádio, dado que muitos moçambicanos não têm ainda acesso à comunicação por imagens televisivas.

– Acho bem, Carlos! É de aplaudir que se faça justiça e sem as demoras que estamos acostumados a ver por cá, sobretudo quando os processos metem gente desse calibre...

– Pois, continua a escrever o jornal que "o juiz Dimas Marroa considerou o ex-ministro autor moral e material do desvio de dinheiro da empresa Aeroportos de Moçambique" e de ter "jogado muito baixo para tirar o dinheiro dos pobres". e o desfalque não ocorreu no século passado, Tio Ambrósio! Ocorreu entre 2005 e 2008. O que quer dizer que, em dois anos, a justiça funcionou, fazendo todas as investigações, todos os inquéritos e ouvindo todas as testemunhas, de tal modo a proferir uma sentença adequada em tempo oportuno.

– O homem, se calhar, desviou uma quantia verdadeiramente astronómica...

– Eu digo-lhe, Tio Ambrósio! E vossemecê até vai ficar de boca aberta, sobretudo se fizer a comparação com o que se passa aqui entre nós, pelo menos a julgar pelo que dizem os jornais que ainda não foram pressionados a calar determinadas notícias...

– Então?

– Diz aqui: "Durante o julgamento, Munguambe (o tal amtigo ministro) foi acusado de ter beneficiado indevidamente de 22 mil euros da empresa, de ter recebido, também indevidamente, um automóvel e de desvio de fundos e bens do Estado".

– Só isso?

– É para que veja, Tio Ambrósio! Por tão pouco e logo 22 anos de cadeia! Vossemecê já viu o que aconteceria se nós tivéssemos cá um juiz Marroa a condenar todos os que recebem presentes indevidos de automóveis, de apartamentos, e os que desviam, não uns míseros milhares de euros (que mal dão para fazer cantar um cego!), mas autênticas fortunas de milhões e milhões da nossa moeda corrente? O Sanguessuga, que também leu esta notícia, disse logo que, a ser assim, tínhamos que construir pelo menos em cada distrito, para já não dizer em cada concelho, um ou mais estabelecimentos prisionais, todos equipados com televisão, serviço privativo de pequeno almoço, sauna e massagens, além de outras comodidades de que nós não podemos usufruir em nossas casas.

– Eu sei que estás a reinar com a situação Carlos! Mas trata-se mesmo de um assunto sério!

– A quem o diz, Tio Ambrósio! Se houvesse alguém a julgar com rigor todos os que têm enterrado a unha na coisa pública, todos os que têm desviado dinheiros que provêm do suor do povo, a coisa havia de ser linda! Eu já não falo dessas pequenas ofertas de um automóvel, de aluguer de um avião para se ir tratar de negócios privados, do oferecimento de uma vivenda à filha que se vai casar, ou de um quase desprezível relógio com dois ou três diamantes no mostrador. Mas refiro-me às vigarices e às negociatas que iam levando à falência (e ainda não estamos livres dela!) o nosso sistema económico e financeiro.

– Não te iludas, Carlos! Vais ver que hão-de continuar inquéritos, investigações, audições e outras coisas do género. Mas, como dizia um nosso antigo governante, isto é só fumaça!